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O primeiro navio negreiro a chegar aos Estados Unidos aportou em Jamestown, Virgínia, em 1619. Trazia um carregamento de vinte negros que foram vendidos, imediatamente, aos arrematadores que ofereceram maiores lances. Havia uma grande demanda de mão-de-obra escrava na medida em que as colônias se desenvolviam; na realidade, toda a economia do Sul foi construída na base do trabalho escravo. O tráfico de escravos floresceu por mais de dois séculos. a população escrava aumentava dia a dia com novos carregamentos chegados da África e a escravidão das novas gerações. O governo dos Estados Unidos proibiu o tráfico de escravos em 1808, mas os negros continuaram sendo contrabandeados para o Sul até a época da Guerra Civil. Quando o Presidente Lincoln firmou a Proclamação da emancipação havia quatro milhões de negros para serem libertados.
Os escravos americanos vinham da África Ocidental, de uma extensa área litorânea que ia do Senegal, no Norte, ao Golfo da Guiné, no sul. Os traficantes de escravos infestavam essa região, atirando tribo contra tribo, de modo que pudessem negociar os cativos. Tratavam os africanos capturados como animais, ou pior ainda. Homens, mulheres e crianças eram amontoados e acorrentados nos porões de navios veleiros. Muitos deles morriam durante a longa travessia do Atlântico.
Aqueles que sobreviviam à viagem nos navios negreiros viam-se depois num mundo sombrio e desnorteante. Eram separados de suas tribos e proibidos de falar sua própria língua. Tornavam-se propriedade absoluta de seus senhores. Podiam ser vendidos ou comprados em qualquer tempo e até mesmo ser vendidos ou comprados em qualquer tempo e até mesmo substituir o dinheiro num jogo de cartas. As mães eram separadas de seus filhos, os maridos, de suas mulheres. A duração ou a dureza de seu trabalho estavam a critério de seus senhores, a quem também competia puni-los quando e como julgassem conveniente. Não tinham o direito de posse, nem liberdade de movimento, tampouco o direito de recorrer á lei. Mesmo com os melhores senhores, os escravos viviam uma vida rigidamente restrita sem esperança no futuro.
É curioso que uma música popular tão bela e tão vigorosa surgisse em tais condições. Mas a verdade é que a instituição da escravidão, cruel como era, ajudou, em vez de obstar, o desenvolvimento dessa música e lhe conferiu profundidade emocional.
Durante dois séculos e meio os escravos foram mantidos isolados do fluxo da vida americana. Foi exatamente esse isolamento que os levou a se apegar às suas antigas tradições musicais e a descobrir canais , em meio as muitas proibições , por meio dos quais pudessem expressar seus mais profundos sentimentos . Desde o início , os senhores de escravos , para evitar a revolta, procuraram reprimir as línguas africanas , o uso de tambores de tiros religiosos . Não obstante, o espírito da música africana sobreviveu e era constantemente retemperada com a chegada de novos contingentes de escravos da África. Seus ritmos nativos eram às vezes cultivados clandestinamente, jamais, porém desapareceram. O conceito africano da música como atividade criativa da comunidade esteve sempre vivo. Está no âmago da música popular afro-americana – e do jazz.
Há quem acredite que os negros são dotados de um especial senso rítmico inato. Parece mais provável que os africanos ocidentais, trazidos para os Estados Unidos como escravos tenham desenvolvido, como uma longa prática, um alto grau de arte rítmica. Eram oriundos de uma cultura que, por acaso, tinha ritmos muito complicados. Todos – homens, mulheres e crianças – participavam da música e da dança. Os escravos estavam condicionados a ritmos que faziam parte de sua fala, de suas canções e dos movimentos de seu corpo.
Uma geração transmitia esses ritmos à geração seguinte nas cantigas de ninar, nos movimentos de mulheres pilando o milho, nas canções de homens trabalhando nos campos. As crianças negras ouviam, na hora das rezas, seus maiores baterem os pés e estalar as mãos, e transmitiram a seus filhos o ritmo sincopado.
Toda música se baseia no ritmo, na melodia e na harmonia. Na música africana ocidental, o ritmo é o mais importante desses elementos. A “cadência” dominava toda a execução musical, enquanto a melodia e a harmonia eram relativamente fracas. Na Europa, a música desenvolveu-se no sentido oposto. O ritmo permaneceu no plano de fundo, enquanto a melodia e a harmonia tornavam-se cada vez mais sofisticadas e importantes.
Os antepassados dos escravos americanos usavam a música todos os dias de sua vida numa proporção desconhecida no ocidente. Na África, a música servia a várias finalidades. Os africanos ocidentais não possuíam uma linguagem escrita, de modo que usavam canções para preservar a história de cada tribo, suas leis e tradições. Essas canções mantinham vivos os heróis do passado e as estórias de antigas migrações e combates. E ajudavam a educar os jovens à maneira da tribo.
A música marcava todas as etapas da vida, do nascimento à morte. Cantar, tocar tambores e dançar marcavam a iniciação de um jovem à vida adulta, seu casamento, suas incursões como caçador ou como guerreiro. O menor acontecimento – mesmo quando uma criança perdia seu primeiro dente de leite – podia ter uma canção especial. Um acontecimento importante, como um funeral. Exigiam longas e sofisticadas cerimônias, sempre com acompanhamento musical. Todos esses rituais eram mais ou menos de natureza religiosa. Uniam tribos e reforçavam a autoridade dos chefes e dos sacerdotes.
Os africanos ocidentais também cantavam enquanto trabalhavam. Em geral, trabalhavam em grupos e as cantigas estabeleciam o ritmo e serviam para tornar o trabalho mais ou menos semelhante a uma brincadeira. Nessas cantigas, como nos cânticos religiosos os cantores adotavam o sistema de chamadas e respostas. Um cantor-guia fazia uma declaração na forma de canção e era seguido por um coro, que repetia a declaração, fazia-lhe acréscimos ou respondia com exclamações.
Nos Estados Unidos, as cantigas de trabalho dos negros do Sul eram, naturalmente, da mesma forma de guia e de coro, com também os spirituals e os cânticos religiosos. O jazz, na sua evolução, passou a fazer uso desse intercâmbio de vozes e de muitas maneiras.
À diferença dos europeus, que gostavam de mudanças de disposição em sua música, os africanos acidentais usavam a música para criar uma única disposição. Gostavam de repetir indefinidamente seus cantos, seus ritmos de tambores, suas danças. Essa repetição tinha um poderoso efeito hipnótico. Incitava os guerreiros a combater, ou induzia a uma espécie de transe nas cerimônias religiosas. Cantores e dançarinos de ritos religiosos pareciam transportados para outro mundo. Às vezes tornavam-se “possessos”. Perdiam o contato com seus meio e se arremessavam de um lado para outro ou se atiravam ao chão.
A frase musical curta, repetida indefinidamente nas cerimônias africanas, lembra-nos o riff – uma frase musical curta usada no jazz. O riff do jazz é um trecho no compasso de dois por quatro, em geral de ritmo vigoroso, que deve ser repetido. Pode ser executado repetidamente por um solista ou alternadamente entre as seções de uma banda.
Quando os africanos cantavam, resvalavam pelas notas ou contornavam-nas, em vez de tocá-las diretamente. Não mantinham a altura do tom. Suas vozes brincavam em torno dele e os resvalos e arrebatamentos conferiam a suas canções uma estranha qualidade obsessiva, diferente de tudo quanto era conhecido na música ocidental. Os negros americanos do tempo da escravidão cantavam com as mesmas variações de altura e os mesmos resvalos sutis de nota a nota.
Parece provável que o som blues – tão importante no jazz – remonte à maneira africana de cantar entre as notas e em torno delas. No blues, a terceira e a sétima notas da escala são abemoladas – não por um semitom, com qual estamos acostumados, mas por uma fração mais próxima de um quarto de tom.
Essas notas ligadas ocorrem em toda música popular negra e do jazz. A grande cantora de blues, Bessie Smith, podia resvalar facilmente para tons que não podiam ser postos com exatidão na escala. Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Aretha Franklin, entre os cantores de hoje, são também capazes de emitir notas impossíveis de serem transportadas para o papel. É o contrário da tradição musical européia. Um cantor de formação clássica aprende a emitir notas diretas e de uma maneira precisa. Para um cantor dessa formação desviar-se de um tom é uma catástrofe . Essa diferença de formação explica por que cantores de ópera não se tornam bons cantores de blues.
Os africanos acidentais usavam o vibrato em suas canções, e também isto foi adotado pelo jazz. O vibrato é um efeito ligeiramente trêmulo ou vibratório. Os cantores africanos usavam esse dispositivo para tornar certas partes de suas canções mais importantes ou para conferir-lhes intensidade emocional. No jazz, o vibrato atende à mesma finalidade e estabelece uma pulsação rítmica dentro do ritmo principal da peça – uma cadência dentro de outra cadência.
Os africanos ocidentais conheceram e usaram vários e diferentes instrumentos musicais. Além de simples marcadores de ritmo, como chocalhos e matracas de osso, possuíam um instrumento de corda que foi o precursor do banjo americano. Usavam também um instrumento semelhante à marimba, feito com cabaças e cordas e tocado com duas varetas – o avô do vibrafone. Mas seus instrumentos mais importantes eram os tambores, responsáveis pelos fantásticos ritmos que moldaram a música negra através dos séculos.
Os tambores africanos eram feitos de toros ocos tampados com pele de animais. Esses tambores eram afinados, isto é, a pele era esticada até diferentes graus de tensão, por meio de cavilhas enfiadas na madeira. Eram feitos para imitar os sons da voz humana – masculina e feminina – e até mesmas palavras. Eram, na verdade, “tambores falantes”, por meios dos quais eles deviam falar. O tocador do tambor tanto o percutia com o fazia vibrar com o joelho ou o cotovelo para produzir efeitos diferentes. Os tambores podiam suplicar ou falar com bondade, como também podia ameaçar e rosnar.
Em geral, eram usados de dois a seis tambores, e cada tocados desenvolvia sua própria e complicada cadência. Os ritmos eram insistentes, impulsivos e hipnoticamente fortes. Eram regulares, mas não dentro daquela ordem a que estamos acostumados. Não havia nada semelhante à medida de tempo de compasso quaternário e não havia regras absolutas quanto aos pontos de incidência das marcações. Um tocador africano de tambor acentuava toda décima quinta cadência, se assim lhe aprouvesse. Imaginem as complicações rítmicas quando vários tambores soavam juntos, cada qual numa cadência diferente.
Têm sido feitas muitas gravações da música africana de tambor. African Drums (“tambores Africanos”) é um exemplo disso. Embora de execução mais ou menos recente, essa gravação dá uma boa idéia da tradicional arte africana no toque de tambores, que tem mudado muito pouco através dos séculos. Homens do jazz ouvem tambores africanos com um sentimento misto de admiração e frustração, pois o jazz nunca pôde competir com esses ritmos complexos.
A música africana ocidental não é jazz em si mesmo. Nem se deve esperar dela que soe como o jazz. O jazz moderno levou três séculos e meio se fazendo e a toada africana, que chegou aos Estados Unidos com os primeiros navios negreiros, misturou-se totalmente com muitas diferentes espécies de música de nossa cultura. (...)